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letra de maria bethânia salve as folhas / o descobrimento (poema)

Maria Bethânia, uma das maiores intérpretes da música popular brasileira, possui em seu vasto repertório canções que transcendem a mera performance musical, transformando-se em verdadeiras obras de arte poéticas. Uma dessas joias é a composição que une “Salve as Folhas” e “O Descobrimento (Poema)”, uma combinação que celebra a exuberância da natureza brasileira e reflete sobre a complexa história da colonização.

letra de maria bethânia salve as folhas / o descobrimento (poema)

Este artigo se propõe a analisar a profundidade lírica e simbólica de “Salve as Folhas / O Descobrimento (Poema)”, explorando as mensagens intrínsecas nas letras e a interpretação magistral de Maria Bethânia. Abordaremos a importância da natureza, a reflexão sobre o passado colonial e a busca por uma identidade brasileira autêntica, tudo isso sob a ótica da poesia e da música.

Salve As Folhas: Um Hino à Natureza e à Cura

“Salve as Folhas”, a primeira parte da composição, é um cântico de louvor à natureza, em particular às folhas, elementos essenciais para a vida e símbolos de cura e renovação. A letra evoca a conexão ancestral entre o ser humano e o mundo natural, resgatando a sabedoria popular e a importância das plantas para a saúde e o bem-estar.

A repetição da frase “Salve as folhas” funciona como um mantra, reforçando a ideia de reverência e proteção à natureza. As folhas são personificadas, ganhando atributos de cura e proteção: “salve as folhas que curam”, “salve as folhas que protegem”. Essa personificação demonstra a profunda ligação entre o ser humano e o meio ambiente, onde a natureza não é apenas um recurso a ser explorado, mas sim um parceiro vital.

A invocação das folhas também pode ser interpretada como uma homenagem às religiões de matriz africana, onde as plantas possuem um papel fundamental em rituais de cura e proteção espiritual. Maria Bethânia, conhecida por sua ligação com a cultura afro-brasileira, presta assim um tributo à sabedoria ancestral e à força da natureza.

O Descobrimento (Poema): Uma Reflexão Crítica Sobre o Passado Colonial

A segunda parte da composição, “O Descobrimento (Poema)”, apresenta uma perspectiva crítica sobre o processo de colonização do Brasil. Através de versos carregados de simbolismo e ironia, o poema questiona a narrativa oficial do “descobrimento”, revelando as consequências devastadoras da chegada dos portugueses para os povos originários e para a natureza exuberante do país.

A letra do poema, que frequentemente é atribuída a Oswald de Andrade, embora haja controvérsias sobre a autoria exata, descreve a chegada das caravelas portuguesas com um tom de estranhamento e desconfiança. A frase “Deitada à beira do rio / Vi chegar as caravelas” sugere uma observação passiva, mas carregada de apreensão.

A beleza da paisagem brasileira, descrita em detalhes (“as garças”, “o sol”, “a mata”), contrasta com a violência e a exploração que se seguiram à chegada dos colonizadores. O poema denuncia a destruição da natureza e a subjugação dos povos indígenas, questionando a validade do termo “descobrimento” para descrever um processo marcado pela violência e pela exploração.

A utilização de imagens fortes e contrastantes, como a beleza da natureza e a brutalidade da colonização, intensifica o impacto do poema e convida o ouvinte a refletir sobre a história do Brasil sob uma nova perspectiva. A ironia presente em alguns versos, como a referência à “civilização” trazida pelos portugueses, explicita a crítica à narrativa oficial do descobrimento.

A Interpretação de Maria Bethânia: Emoção e Compromisso